quinta-feira, 28 de maio de 2009

Lembranças do meu pai sobre o 25 de Abril

O meu pai tinha 11 anos, quando foi o 25 de Abril.
Ele lembra-se de ouvir as pessoas a falarem, no meio das ruas, que tinha havido uma revolução em Lisboa. As pessoas iam a correr para as suas casas ou para os cafés, para ouvirem as notícias, no rádio a pilhas e na televisão, que só ligavam às vezes, porque era a gerador e não havia muita electricidade que aguentasse a energia que era precisa para a televisão.
Ouviam-se as pessoas a gritarem “Liberdade”.
No dia seguinte, as tropas percorreram as aldeias com os carros blindados. Era uma fila de carros de combate e o meu pai e os seus colegas iam a correr para ver.
Ao fim de alguns dias, ouviam-se pessoas a cantar as músicas do Zeca Afonso e a tocar no rádio várias músicas dele.











































Ana Gonçalves

A saúde nas Rochas de Baixo

O meu pai lembra-se de ser muito raro ir uma ambulância à aldeia dele, só mesmo quando era muito grave.
Quando as pessoas estavam doentes, ficavam em casa. Era muito raro virem ao hospital, só quando estavam mesmo muito doentes é que apanhavam o autocarro ou um amigo que tivesse carro levava o doente.
Quando as pessoas tinham constipações, não havia comprimidos, faziam chás e outras “mansinhas”.
Quando tinham febre, colocavam toalhas molhadas na cabeça, porque não havia medicamentos.
Às vezes, tinham de ir trabalhar mesmo doentes, para não perderem o trabalho.




















Ana Gonçalves

A apanha da azeitona

O meu pai começou a apanhar a azeitona desde pequeno, com os meus avós e para outras família que precisassem de ajuda. Nos princípios de Novembro, começava a apanhar a azeitona que ia caindo para o chão e depois, em meados de Dezembro, começava a colher a que estava ainda na rama. Subia numas escadas encostadas às oliveiras, passava as mãos pela rama e as azeitonas despegavam-se e caíam em cima de uns panos grandes, que se colocavam por baixo e em volta do tronco das oliveiras.
Quando já estava apanhada juntava as pontas dos panos e as azeitonas juntavam-se no centro dos panos e eram atiradas para um monte, onde retirava os ramos das folhas maiores e se erguia a azeitona para tirar as folhas soltas e para a azeitona ficar limpa.
Isto tudo demorava 2 meses e meio, mais ou menos, dependendo do tempo e da quantidade de azeitonas para colher.
Enquanto se apanhava, já se ia moendo a azeitona nos lagares de varas, que trabalhavam de noite e de dia.















































Ana Gonçalves

Guerra do Ultramar

O Senhor Adelino esteve na Guerra do Ultramar e contou-me algumas coisas que se passaram lá.


















O senhor Adelino recebeu a carta de aviso, 10 dias antes da partida. Deixou uma mulher com duas filhas, uma com 15 dias e outra com um ano.Apanhou o barco, no cais de Lisboa, a 6 de Julho de 1973, às 11:30 horas, junto de outras 1600 pessoas em cada batalhão e eram 2 batalhões. Levaram 5 dias até á Madeira, onde fizeram escala, para embarcar outra companhia de cerca de 250 homens. Estiveram 2 horas, na Madeira, para a companhia entrar no barco e partiram para a Guiné. Demoraram 8 dias a chegar. No barco, a alimentação não podia ser coisas que se entornassem. Dia sim, dia não, havia pesca, para que os tripulantes se alimentassem, porque quase nunca era carne.No segundo dia de viagem, no barco, tiveram uma instrução de salva-vidas. Ensinaram a pôr o salva-vidas e a salvarem-se se o barco avariasse ou se afundasse.Os que iam no primeiro andar eram os oficiais e os comandantes e, no segundo, eram os furriéis, os segundos sargentos, que eram os que estavam no escritório, e os segundos cabos. No terceiro andar, era onde estava o refeitório e as camas dos tropas. Os dormitórios eram do tamanho do barco e dormiam 3 ou 4 pessoas em camas umas em cima das outras.Durante o dia, descansavam e iam para a varanda do barco a ver o mar e os homens de madrugada a pescarem peixe.Quando chegaram à Guiné, ao avistar terra, atracaram afastados da costa, saíram do barco e foram até terra, por um LDG (barco de guerra). Quando chegaram a terra, foram distribuídos por destacamento e cada destacamento tinha a sua especialidade. O do senhor Adelino era de condutor de carros da tropa. Foram distribuídos por aldeias e vilas. Em Bolama, nos primeiros dias, antes de ir para os estágios, quando estavam a comer, foram atingidos de surpresa pelos “terroristas” com mísseis, em que morreu a primeira vítima. Dormiam em tendas, 4 ou 5 pessoas na mesma tenda, dependia do tamanho da tenda. Quando não estavam em operação e às vezes quando estavam, dormiam em minas (abrigo debaixo do chão) e cabiam 12 pessoas em cada abrigo. Eram 10 abrigos em cada destacamento.Só havia 1 refeição de peixe por semana, quando não estavam em operações.Quando iam para a operação, tinham meia hora para comerem e para tomarem 3 comprimidos com o vinho, para não terem medo da guerra, meia hora para se equiparem e 15 minutos para formar.Saiu de lá, depois de ter guardado os portugueses, na Guiné, depois do 25 de Abril, no dia 7 de Setembro de 1974, num avião 707, até Lisboa.À noite, num papel, escrevia as operações que teve ou tentativas de operações:«Setembro, um ataque à aldeia Formosa7/9/1974 – Ataque a Cobejá, 1 mortoPatrulhamento, um mortoBolama, um morto e 2 feridos16/12/1973 - Operação à mata pronto a matar27/12/1973 – Coluna a fasiu ataque15/1/1974 – Coluna Cojá – 9:23 horas31/1/1974 – Um carro Fiat foi deitado a baixo pelos turros (inimigo)24/2/1974 – ataque conqualifá – 16:00 horas05/3/1974 – ataque conqualifá – 6:00 horas18/3/1974 – ataque conqualifá – 2:30 horas19/3/1974 – ataque conqualifá – 5:00 horas20/3/1974 – ataque conqualifá – 2:25 horas21/3/1974 – ataque congualifá – 14:00 horas24/3/1974 – ataque conqualifá – 12:00 horas31/3/1974 – ataque conqualifá – 5:15 horas29/4/1974 – Revolução em Bissau com população12/5/1974 – Guiné era para ser invadida com 300.000 turras (inimigos), pelo mar, terra e ar. Gritavam “Viva o Spínola”.»



















Ana Patrícia

o meu pai, na sua infância

O meu pai nasceu, em 2º de Maio de 1962, na aldeia Rochas de Baixo, freguesia de Almaceda, concelho e distrito de Castelo Branco.A vida dele sempre foi muito difícil desde pequeno, tinha de ajudar os pais a trabalhar no campo, de ir para o mato com um grande rebanho, de cerca de 100 cabras. Às vezes, quando tinha fome, ordenhava uma cabra e bebia o leite com pão.Na escola primária, tinha de faltar alguns dias, porque tinha de ir ajudar os pais a trabalhar e também não tinha quase tempo nenhum para estudar.Com cerca de 9 anos, começou a ir ver televisão para uma tasca da aldeia, aos domingos à tarde e à noite. Como não havia energia eléctrica na aldeia, a televisão trabalhava com energia de um gerador e não podia estar todos os dias ligada. Nessa tasca, que era a única que tinha televisão, o meu pai costumava ver o Popey, a Pantera Cor-de-Rosa, notícias, séries de cowboys e outras séries.Na escola, ele tinha aulas numa sala com cerca de 40 alunos ou mais, onde o professor dava do 1º ou 4ºano. A sala de aula tinha fotografias do Salazar, do Ministro da Educação, do Presidente da República e ainda um crucifixo.O meu pai usava roupa às vezes com remendos, botas fortes feitas nos sapateiros da aldeia, com sebo para não molhar os pés quando ia para o mato.Quando andava a apanhar a azeitona, passava dias a apanhar as que caíam ao chão. Nas sementeiras, andava à frente de uma junta de bois, a lavrar os terrenos para semear trigo, centeio, milho e batatas. Tinha de ir apanhar mato para pôr nos currais dos animais e depois tiravam o estrume para as terras.O pequeno-almoço era couves, nabos, sopa, pão cozido que a minha avó cozia no forno da casa, onde cozia cerca de 20 pães. Ao almoço, às vezes fritavam as batatas no azeite puro, comiam ovos das galinhas que os meus avós criavam, bebiam leite das cabras e comiam marmelada, mel e azeitonas.Normalmente, deslocava-se no carro dos bois ou a pé. Raramente apareciam carros na aldeia e, quando aparecia um carro, todos os garotos iam a correr para ver.Uma vez, quando apareceu um camião de areia, os garotos foram todos agarrados ao camião, para andarem um bocadinho na viatura, já que era uma coisa rara.Com 15 anos, começou a andar na resina: desencarrascar, picar, renovar e, no fim do ano, raspava os pinheiros com os adultos. Já tinha horário de trabalho com 8 horas por dia e, no Verão, no fim de cumprir o horário de trabalho, ainda ia regar o milho.

Ana Patrícia